terça-feira, 12 de abril de 2011

Vaguear

"andar vagando, ao acaso;
passear ociosamente;
vagar;
errar, sem destino
andar sobre as vagas; flutuar; boiar.”


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Acho que toda a gente devia, uma vez na vida, correr uma onda. Sou dessa opinião.
Mas apenas uma. Escolhiam uma, corriam-na na totalidade, experimentavam, vivenciavam, faziam parte da experiência curiosa que é “caminhar” sobre a água. Faziam-no e afastavam-se em seguida. Assim mesmo, simplesmente.
Mas não da forma que um dia Alguém o fez. Não se trata de milagre ou poder divino.
Aqui tratar-se-ia de partilha. Partilha de conhecimento. Dentro do “mundo de água e sal”, Nat Young, disse que os corredores de ondas são uma raça de gente diferente que caminha nas ruas, com um ar superior às pessoas “comuns” que passam. Como se soubessem algo que mais ninguém sabe. Concordo. E não é presunção, é um facto. Não há argumentos contra isto. Quem nunca correu uma vaga de mar, quem nunca “vagueou” pela água, sabe menos. Desconhece as sensações que surgem debaixo dos pés descalços e movimentos ondulantes, e por isso, sem o saber, é menos feliz. Daí que tenha começado por dizer que todos deviam fazê-lo uma vez na vida. O dia-a-dia de todos seria menos entediante e mais tolerante. Juro.
Sentem-se um dia, num qualquer muro de praia, e observem quantos corredores de ondas saem do mar de ar sisudo e/ou agressivo. Observem a atitude, a linguagem corporal, a linguagem não verbal, de cada um deles e descubram as semelhanças, não as diferenças, que essas serão poucas. E existe uma razão. Observem.
Tento agora explicar a parte complicada desta minha opinião. Fazê-lo apenas uma vez. Uma vez e apenas uma, seria condição imposta. Estou muito seguro em afirmar que depois desta experiência singular, poucos seriam os que conseguiriam afastar-se sem tentar argumentar, renegociar, refutar, contradizer, impugnar, desmentir, enfim, contestar este “contrato” de correr uma só vaga de mar. E como eu os entenderia. Seria como permitir ao cego que visse durante um dia para logo depois lhe retirar esse dom. Analogia algo pesada, eu sei. Mas é propositada.
O tal conhecimento extra que os corredores de ondas têm, seria, por breves momentos vivenciado, distribuído, partilhado por todos. Nesse instante todos saberiam o que os move, a esta “raça”. Acabar-se-ia com esse conhecimento extra, todos saberíamos o mesmo. Compreender-nos-íamos todos. Mas só um grupo restrito poderia continuar.
A alegria conquistada anteriormente na água daria lugar à frustração de alguém que tinha conhecido por um breve instante um conjunto de sensações que não se pode ter em lugar algum que não na superfície de uma vaga. E isto não é qualquer coisa. E passariam a saber porque eram menos felizes. E agora que penso nisso, reformulo: Se és um corredor de ondas, não pares. Se nunca correste uma onda, não comeces.
A ignorância pode ser uma bênção.
(texto premiado na revista Surf Portugal #220 - Maio 2011)
texto e fotos por Marco C.

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5 comentários:

Kaipiroska disse...

As fotos já eram fantásticas por si só. Agora acompanhadas por um texto super bem escrito e sentido, acredito que vais ganhar mais fãs e seguidores. Cada vez melhor... como o tinto ;)

Kaipiroska disse...

ps- clikei, enlargei e adorei ;)

Ana Flora disse...

Alguém tem talento para a narrativa!

Marco C. disse...

Portugal tem talento! :p

Ester disse...

Muito bom! Adorei o texto!